Ntozake Shange - Poesia: substantivo feminino (e para sempre vivo), por Oluwa Seyi
- Gustavo Marcasse
- 27 de dez. de 2025
- 5 min de leitura

colored & alive
para Ntozake Shange, quem me recordou que o arco-íris é um orixá
contei uma dezena de garotas coloridas exaustas e desenganadas
contei uma centena de dores coloridas intraduzíveis por léxicos indo-europeus
contei um milhar de abraços coloridos que rezam nomes de encantar abiku
contei, porém, apenas uma certeza — ainda colorida:
muitas garotas coloridas só gingam com a Vida
porque outras garotas, coloridas também
cantam em coro uma velha cantiga que a Morte branca ainda não sabe dançar
&, com fé, talvez nunca aprenda.
Salve, Salve, pessoal! Com este texto que mistura fragilidade, persistência e fé, encerramos a coleção “Poesia: substantivo feminino (e para sempre vivo)” e o ano de 2025. Que ano! Foram tantos em um, pelo menos para mim. E finalizar esta jornada/iniciar outra com admiração pelo que foi possível construir e manter de pé é fundamental. Não esquecer é manter vivo, como busco dizer sempre que produzo um texto para o nosso #Pretapalavra. Meu jeito especial de recordar é escrever sobre.
Hoje, a estrela homenageada por mim é Ntozake Shange (1948-2018), dramaturga, romancista, poeta, bailarina e ativista estadunidense, aclamada principalmente por suas peças teatrais. No poema em seu tributo que abre este texto, refiro sua obra incontornável For colored girls who have considered suicide when the rainbow is enuf: a choreopoem (1975), uma mistura de teatro, poesia, canto e dança: um coreopoema, como a própria Ntozake Shange nomeou. Conheci esse trabalho há alguns anos por meio de uma adaptação para cinema realizada de forma muito sensível por Tyler Perry. O filme For colored girls (2010) conta com grandes atrizes e atores negros estadunidenses, como Whoopi Goldberg, Loretta Devine, Phylicia Rashad, Tessa Thompson e Michael Ealy. Só depois de assistir e me emocionar profundamente que descobri a existência da obra original, inclusive em livro (1977).
A obra de Shange é absurdamente dolorosa. Aborda perda, abuso, violência, abandono e os muitos desafios que mulheres, especialmente negras, têm encontrado, historicamente, em suas trajetórias. No entanto, a dor não resume a obra. As personagens, representadas por cores, encontram amor, força e cuidado umas nas outras, formando, a partir dessa relação construída, um arco-íris de amigas e confidentes negras. Como meu poema acima diz, Shange nos apresenta “garotas coloridas exaustas e desenganadas”, mas elas não desistem, mesmo contando tantos motivos para tanto, porque se encontram, se unem e se amparam mutuamente. Elas afastam o desejo de morte com o abraço da vida: é o coletivo e o reflexo gentil no espelho de outras mulheres negras que as faz seguir. Foi o coletivo e o reflexo gentil no espelho de outras mulheres negras que me fez seguir também.
Em 2021, uma chamada para de publicação para uma revista de poesia e tradução da Editora Urutau me inspirou uma vontade inesperada. Esse livro de Ntozake Shange não possui, até hoje, versão em português, e decidi traduzir um dos meus poemas favoritos da obra e submetê-lo à avaliação. Passei semanas lendo e relendo “no assistance” e rascunhando uma tradução que estivesse à altura do original. Cheguei à versão traduzida, intitulada “sem ajuda”, a qual foi escolhida para publicação e lançada em 2022 na revista EuOnça.
Com esse vôo bonito, reavi uma velha e quase esquecida aspiração. Quando ingressei no curso de Letras, sonhava formar-me tradutora inglês/português, e mais de dez anos depois foi a palavra impressionante e forte de uma mulher negra que realizou um pouco desse ideal. Não sei, hoje, se a tradução será um caminho recorrente para mim, mas ainda me sinto convidada a traduzir outros os poemas dessa obra que me emociona tanto e, quem sabe, ser ponte para a emoção de outras pessoas que não compreendem a língua original dos textos de Ntozake.
sem ajuda
sem qualquer ajuda ou orientação sua
eu te amei, assiduamente, por oito meses, duas semanas & um dia
vim até aqui quatro vezes
deixei sete pacotes em sua porta
quarenta poemas, duas plantas & três blocos de nota feitos à mão, eu saí
da cidade para enviá-los para você, que não tem me ajudado
em meu trabalho
você me liga às três da manhã em dia de semana
então eu dirijo quarenta e quatro quilômetros através da baía antes de ir trabalhar
você é um charme, você é um charme
mas não é do tipo que ajuda
eu quero que você saiba
que isso foi um experimento
para descobrir o quão egoísta eu poderia ser
se eu poderia continuar a me prender em um caso incerto
se eu seria capaz de desonrar a mim mesma pelo amor de outra pessoa
se eu poderia continuar sendo não desejada
quando eu desejava ser desejada
& não era
então
sem futura ajuda & orientação sua
estou terminando nosso romance
este recado está preso a uma planta
que venho regando desde o dia em que te conheci
você pode regá-la agora
por conta própria, seu miserável.
(SHANGE, 1997, p. 13-14 trad. Oluwa Seyi Salles Bento in Revista EuOnça, 2022, p. 82)
Ntozake Shange, batizada Paulette Linda Williams, nasceu em Nova Jersey, EUA, em 1948. Seu nome artístico e de vida é oriundo de duas línguas do sul do continente africano, Xhosa e Zulu, e significa, respectivamente, “aquela que vem com suas próprias coisas” e “aquela que anda como um leão”. Casou-se por duas vezes e teve uma filha, Savannah. Cursou Estudos Americanos na Universidade Columbia e recebeu título de mestra na mesma área pela Universidade do Sul da Califórnia. Foi docente convidada nas Universidades de Houston, Nova Iorque, Rice, Yale e City College e foi artista visitante da Universidade da Flórida. Escreveu quase cinquenta obras, entre peças de teatro, romances, ensaios, livros de poesia e recebeu um sem fim de prêmios por suas produções.
O interesse genuíno pela experiência negra-feminina atravessou a carreira de Shange e, mesmo depois de sua partida, em 2018, continua atraindo apreciadores no mundo inteiro. Para Ifa Bayeza, irmã mais nova de Ntozake e também escritora, “não há um dia no planeta em que uma mulher jovem não compreenda a si mesma através das palavras de minha irmã”, e eu não poderia concordar mais com essa ideia.
Espero que a coleção “Poesia: substantivo feminino (e para sempre vivo)” e as palavras das gigantescas poetas que visitamos nestes meses sejam ainda, de novo e pelos séculos caminhos nossos de autocompreensão e encontro íntimo e coletivo. É uma honra imensa ser ponte para a manutenção do legado das nossas ancestrais poéticas! Finalizo esta bonita jornada desejando que a coragem, a genialidade e o encanto delas, herdados por nós, nos permita ser sementes que jamais esqueçam a grandeza das árvores que as originaram. Noémia, Beatriz, Victoria, Alzira e Ntozake jamais morrerão porque nossa memória não permitirá!
Oluwa Seyi é curadora no projeto PRETAPALAVRA, uma iniciativa da Capivara em parceria com Maria Carolina Casati, para divulgar e amplificar as vozes de escritoras negras.

Oluwa Seyi nasceu em São Paulo, na década de 90. É poeta, pesquisasora, critica literária e percussionista. Possui graduação e mestrado em Letras pela Universidade de São Paulo, e atualmente desenvolve pesquisa de doutorado também em Letras, na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, pela mesma instituição de ensino. Seus interesses de pesquisa são a produção artística de mulheres negras e a representação da experiência afrorreligiosa nas artes. Autora do livro de poesia O que há de autêntico em uma mãe inventada (Ed. Urutau, 2022), do zine estudo poético do corpo (2021, edição independente) e da plaquete digital Poemas que atravesssam meu corpo negro & fêmeo (2024, edição independente) . Tem poemas, contos e artigos publicados em revistas e antologias literárias e acadêmicas de diversos estados do país, como Cartas para Esperança (Ed. Malê, 2022) e Cadernos Negros 44 e 45 (Ed. Quilombhoje, 2022/2024). Além da escrita literária, interessa-se em tradução de poesia e escrita para áudio-visual. Atualmente é integrante do Sarau das pretas, coletivo artístico-literário gestado por mulheres negras. Escreve desde que se recorda e não consegue imaginar a si mesma longe do lugar de produtora, apreciadora e crítica de literatura.





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