Beatriz Nascimento - Poesia: substantivo feminino (e para sempre vivo), por Oluwa Seyi
- Gustavo Marcasse
- 27 de set. de 2025
- 5 min de leitura

o Atlântico varando meu corpo
no início, eram os pedaços
a cola minguante, a ruptura crescente
e eu convicta de que não seria tão grande assim
a ponto de reclamar se doesse o toque
mesmo quando carinho
"como é mesmo que se pronuncia?"
e eu repetiria para que a oxítona ecoasse pelo mundo
Oluwa!
depois dos pedaços, entender os encaixes
até não sentir a falta da cola
meu nome em iorubá foi a garantia de que não me preciso Pangeia
de um lado, Diáspora
do outro, uma África viva
Hoje é bonito ter o Atlântico varando meu corpo
(SEYI, 2024, p.3)
Salve, salve, pessoal! Aqui nasce mais um texto de homenagem a uma poeta e intelectual negra que iluminou meu caminho e tornou a literatura uma escolha possível e de companhia. Escolhi este texto acima, que abre meu plaquete autopublicado em 2024, intitulado poemas que atravessam meu corpo negro & fêmeo, por um motivo especial: ainda que ele não tenha sido dedicado, originalmente, à Beatriz Nascimento, é impossível não perceber a influência dessa grande mulher no efeito que esse poema pode gerar, sobretudo em quem entende o peso e a importância do trabalho de Beatriz. Há por aí, além desta, muita intertextualidade que não é arquitetada previamente, mas o aparente “acaso” não apaga o brilho dessas sintonias (é possível que as faça brilhar ainda mais).
Neste #Pretapalavra do mês de primavera, mesmo espaço-tempo em que minha parceria com a Capivara Cultural começou, um ano atrás, vejo-me mais uma vez convidada a falar de florações e podas fundamentais. No poema “o Atlântico varando meu corpo”, penso justamente sobre o direito e a urgência de ter minha existência plenamente respeitada como ela merece. Respeitar meu nome, oriundo de uma língua africana que no Brasil possui status de sagrada, tem o mesmíssimo peso de respeitar outros índices da minha negritude, como meu cabelo, minha cor e meus traços. E exigir tal tratamento digno dos outros foi consequência, via de regra, de exigir o mesmo de mim, muito antes. Alcançar a percepção de que meu nome significa que sou atravessada pelo Atlântico e por tudo que ele guarda, depois de três décadas de vida, tem muito a ver com as reflexões inteligentes e sensíveis de Beatriz.
Ser poética e sentimentalmente movimentada pelo oceano só me foi possível graças à Beatriz, afinal, creio que o Atlântico só tenha passado a me habitar como símbolo depois de conhecê-la e ouvi-la afirmar: “eu sou atlântica”. Nesse meu poema, que também sou eu mesma, busquei deixar evidente que a condição de atravessante/atravessada/atravessável pode ser libertadora e de reencontro íntimo. Já que a inteireza não é possível, conviver pacificamente com a quebra precisa sê-lo. A origem não deve ser esquecida, e o mesmo se aplica ao percurso: se a África é minha largada, o Atlântico foi o caminho. É importante para o povo negro das Américas fazer as pazes com o oceano e aprender a ressignificá-lo para além do horror.
A obra paradigmática de Beatriz com o qual meu poema dialoga é narrada por ela mesma no documentário Ori (1989), dirigido por Raquel Gerber. Trata-se de um texto contundente e meditativo, poético e pedagógico, histórico e crítico: uma mistura complexa que espelha a complexidade do que é ser negro no Brasil. Beatriz Nascimento, ainda que talentosa artista, foi e é mais reconhecida pela escrita opinativa que pela poética, então, neste texto, quero iluminar mais seu trabalho literário, que pouco foi divulgado durante sua vida, mas felizmente chegou até nós em obras organizadas pelo professor e pesquisador Alex Ratts. Bethania Nascimento Gomes, filha de Beatriz e também organizadora do livro Todas (as) distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento (2015), reflete que foi com sua mãe que ela percebeu que ativismo social também tinha poesia. Creio que tal percepção seja uma das mais sensíveis sobre algumas pessoas que escolhem/ aceitam a intimação da militância séria: não é fácil construir ou reforçar uma dimensão de encantamento naquilo que é tão cansativo e desconfortável quanto posicionar-se cotidianamente contra opressões que nos desumanizam. Incomoda, machuca, exaure. E Beatriz conseguiu. Muitas e muitos artistas da literatura, da música, do teatro e das artes no geral também conseguem e por isso eu não me canso de celebrar seus trabalhos e a presença de espírito que é necessária para torná-los possíveis.
Escolho compartilhar aqui um poema de Beatriz, intitulado “Betha”, do qual gosto muito e julgo bastante significativo. Nesse texto, cujo título é o apelido de sua filha Bethania, Beatriz dirige-se à moça, que hoje é uma renomada bailarina, refletindo sobre a condição de ser mulher.
Betha
Mulher é como ser
Vagarosa tartaruga
Que silenciosa desova
E povoa o mar
Que solitária retorna
A origem de seu destino
Nadando como peixe
Quando deveria estar
Voando como pássaro
Mulher é como ser
Estridente qual guitarra
Em delirante Rock
Ferina e incomodante
Sonora e mutante
Nas escalas do espaço exterior
Mulher é como ser
Você, inquieta e ansiosa
Receosa e corajosa
Construindo seu eu
Em rosadas sapatilhas
Nunca deixes de dançar...
(NASCIMENTO In RATTS & GOMES, 2015, p. 28)
Maria Beatriz Nascimento nasceu em Aracaju, Sergipe, em 1942. Foi filha, mãe, amiga, historiadora, professora, ativista social e estudante de mestrado pela UFRJ. Pôde conhecer países africanos e isso com certeza fortaleceu seu senso de pertencimento afro-diaspórico. Sua poesia está compilada no livro Todas (as) distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento e espero que cada vez mais celebremos Beatriz também por sua lírica, para além de sua luta, que foi incontornável. Valorizar de mulheres negras pelo que mobilizam no sentido da criatividade e do esmero artístico também é um ato político reparatório.
Beatriz teve sua vida covardemente ceifada há 30 anos, em janeiro de 1995, porém seu legado segue vivo, estimulante e atlântico, como ela diria. Hoje, nossa ancestral, suas reflexões enriquecem bibliografias de cursos universitários, mas seus vôos poéticos também iluminam e inspiram meninas que dançam, pintam ou escrevem a seguir “construindo seu eu”. Obrigada, Beatriz, por nos ensinar a encarar o mar como imagem e semelhança da nossa própria grandeza!
Oluwa Seyi é curadora no projeto PRETAPALAVRA, uma iniciativa da Capivara em parceria com Maria Carolina Casati, para divulgar e amplificar as vozes de escritoras negras.

Oluwa Seyi nasceu em São Paulo, na década de 90. É poeta, pesquisasora, critica literária e percussionista. Possui graduação e mestrado em Letras pela Universidade de São Paulo, e atualmente desenvolve pesquisa de doutorado também em Letras, na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, pela mesma instituição de ensino. Seus interesses de pesquisa são a produção artística de mulheres negras e a representação da experiência afrorreligiosa nas artes. Autora do livro de poesia O que há de autêntico em uma mãe inventada (Ed. Urutau, 2022), do zine estudo poético do corpo (2021, edição independente) e da plaquete digital Poemas que atravesssam meu corpo negro & fêmeo (2024, edição independente) . Tem poemas, contos e artigos publicados em revistas e antologias literárias e acadêmicas de diversos estados do país, como Cartas para Esperança (Ed. Malê, 2022) e Cadernos Negros 44 e 45 (Ed. Quilombhoje, 2022/2024). Além da escrita literária, interessa-se em tradução de poesia e escrita para áudio-visual. Atualmente é integrante do Sarau das pretas, coletivo artístico-literário gestado por mulheres negras. Escreve desde que se recorda e não consegue imaginar a si mesma longe do lugar de produtora, apreciadora e crítica de literatura.





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