Pretapalavra feminina dos Cadernos Negros - Ângela & Celinha
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Salve, salve, pessoal! Nosso #PretaPalavra que honra algumas das muitas vozes femininas que dão corpo aos Cadernos Negros hoje se volta para a importância e a força dos inícios, das raízes. Afinal, sem sua semente primordial, nenhuma árvore seria possível. E essa grande e frondosa, cujas flores nomeei, uma a uma, no texto anterior desta série, é uma árvore que não perde seu ímpeto de crescer justamente porque jamais esquece das mãos negras e femininas que a regam e adubam. Em mais um Julho das Pretas, é fundamental realizar o movimento proposital & propositivo de manter essas mãos vivas em nossas memórias e ações.
No primeiríssimo número de Cadernos Negros, apenas duas mulheres fizeram parte do grupo de autores que publicaram seus poemas: Ângela Lopes Galvão e Celinha Pereira. Depois dessa estreia nos CN, Ângela publicou mais uma vez, e Celinha contribuiu com textos em mais outros três números. Infelizmente, mesmo com seus importantes papéis nessa que é uma das mais relevantes antologias literárias do Brasil, é bastante difícil encontrar maiores informações sobre Ângela e Celinha, sendo este breve texto resultado dos poucos estudos sobre elas que se pode acessar.
Quando publicou pela primeira vez, em 1978, a matogrossense Ângela contava com 24 anos e apresentou cinco textos poéticos, dentre eles o intitulado “Retratação", que transcrevo a seguir. No referido poema, reflete-se sobre a condição social da mulher negra. Aspectos como gênero, raça, interseccionalidade e diferença de tratamento interpessoal e afetivo baseado nesses fatores são mobilizados no texto de forma aguda e direta. O poema se estende de forma vertical pela página exatamente como essa lâmina que a temática do poema impõe, sem perder de vista as questões sensíveis, de ordem tão delicada, que mobiliza:

Celinha, em 1978, quando CN1 foi lançado, tinha apenas 22 anos. Nascida e criada no interior de São Paulo, Célia Aparecida Pereira também escreveu peças teatrais e contos, tendo publicado um deles na quarta edição dos Cadernos Negros. Dentre seus belos e contundentes poemas, destaca-se “Negritude", lançado em 1984 nos Cadernos Negros 7 e republicado na edição de melhores poemas, em 1998. Neste poema, transcrito abaixo, o eu-lírico revisita a negritude histórica e constrói uma espécie de árvore genealógica poética dessa experiência racial negra que desponta na primeira estrofe e se radicaliza à medida que o poema avança.


Como é possível perceber a partir da leitura desses poemas interessantíssimos, Ângela e Celinha possuem meios e modos poéticos bastante diferentes entre si. Tais contrastes contribuem para que compreendamos de uma vez por todas que não é possível condensar gênios e trabalhos literários múltiplos de mulheres negras em um índice (redutor) amparado pela representatividade única. Assim como estas duas autoras, outras escritoras negras, publicadas ou não nos Cadernos Negros, são galhos, folhas e flores de uma mesmíssima árvore, porém cada uma com seu contorno, colorido e seu perfume. E como bem diz Cuti, “a árvore continua a dar seus frutos”. Resta-nos a missão de construir jardins cada vez maiores para que a natureza negra floresça mais livre dos limites que inventaram para contê-la. Anseio amorosamente que este texto e toda essa série seja um desses jardins!




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