PretaPalavra feminina dos Cadernos Negros - Maga & Tietra

Salve, salve, pessoal! Neste quarto texto desta coleção de homenagens às vozes femininas que construíram os Cadernos Negros, quero povoar nosso #PretaPalavra de uma intencional dose de não esquecimento. Acredito, como já disse antes por aqui, que recordar é uma das maneiras mais eficazes e honrosas de manter vivo o que nos é caro. E a escrita de mulheres negras me é caríssima! Hoje, quero recordar e celebrar a poesia de Maga e de Tietra.
Fato é que, praticamente meio século depois da publicação dos primeiros textos das escritoras em questão nas páginas dos CN, eu, leitora e herdeira simbólica dessas mulheres, deparo-me com a quase impossibilidade de encontrar fotografias ou informações substanciais sobre elas. Assim como Ângela e Celinha, homenageadas anteriormente nesta coluna, Maga e Marise Tietra tiveram boa parte de sua vida pública/artística invisibilizada. Assim, o esforço principal deste texto é enfrentar, com o parco material de que disponho, o apagamento em curso de suas trajetórias.
Ambas as escritoras cooperaram para a existência de edições bastante iniciais dos CN: Magdalena de Souza, apelidada Maga, publicou pela primeira vez nos Cadernos Negros 2, em 1979; Marisa Helena do Nascimento Araújo, conhecida como Marise Tietra ou apenas Tietra, estreou na quinta edição da antologia, em 1982. Os poemas de autoria dessas importantes mulheres que encontrei disponíveis online nos falam sobre o vigor, a beleza, o orgulho e a inventividade do povo negro em diferentes momentos históricos. Através de estratégias discursivas e caminhos estéticos que divergem entre si, mas se complementam em nome da riqueza e da pluralidade artística negra, tais textos são uma ponte robusta que conecta passado e presente, força e ginga, luta e encanto.
Magdalena de Souza, além de contista e poeta, formou-se socióloga e atriz pela Universidade de São Paulo. Segundo o Dicionário literário afro-brasileiro, de Nei Lopes (2011), a escritora lançou uma coleção de poemas intitulada "O tema que não é esquecido", em 1972. Maiores informações a seu respeito, como data e local de nascimento, relações familiares e atual atividade não foram encontradas. A artista participou de duas edições dos Cadernos Negros seguidas, inicialmente com dois contos e depois com três poemas. “Zumbi”, um desses textos poéticos em questão, é um questionamento sobre o tratamento social dirigido ao grande herói negro.

Contundente, ousado, mas também sentimental e orgulhoso, este poema nos recorda da bravura de Zumbi dos Palmares e, ao mesmo tempo, nos aponta o apagamento da importância dessa figura histórica em alguns espaços sociais. No entanto, entre a “gente antiga” e aqueles que vivem “[n]estas tendas”, Zumbi não é esquecido, sendo alçado a “herói negro”. Interessante perceber que justamente um texto de Magdalena, autora fundamental para a tradição literária negra-brasileira feminina, aborda o tema do esquecimento que se abate sobre corpos negros: o mesmíssimo mecanismo que hoje nos impede de saber mais sobre essa talentosa escritora.
Acerca de Marise Tietra, de forma mais grave, encontrei informações ainda mais escassas: nascida em 1958, na cidade de Barretos/SP, e autora de alguns textos poéticos — publicados nos Cadernos Negros 5 (1982) e 7 (1984) — e um crítico — que faz parte do livro Criação crioula, nu elefante branco (1987). Além disso, não há fotografias da escritora acessíveis online nem mesmo em registros físicos em posse de outros escritores de Cadernos Negros contemporâneos a ela. No entanto (e felizmente), poemas escritos Tietra podem ser encontrados transcritos em trabalhos acadêmicos de pesquisadores da literatura negra produzida no Brasil, como Fausto Antonio e Luiza Lobo. Um desses textos poéticos, apresentado abaixo, é um documento artístico da vida negra dos anos 80 muito encantador. A estética, a vivacidade e a juventude negras são colocadas em cena e celebradas.

A inventividade linguística de Tietra colocada em jogo no poema “Salão chic” depõe sobre o esmero estético tão recorrentemente encontrável em obras literárias de pessoas negras. O cuidado da poesia, do qual fala Conceição Evaristo em seu “De mãe", salta aos olhos ao longo de todo o poema de Marise e nos faz questionar: o que mais de fascinante, tanto quanto este texto, se perdeu antes de chegar até nossas mãos? Quanto de encantamento artístico o apagamento de vozes negras nos roubou e ainda nos roubará? Ao lado de Maga e Tietra, outras escritoras pioneiras de Cadernos Negros, como Maria da Paixão e Regina Amaral, têm pouca ou nenhuma informação a seu respeito disponibilizada para o público leitor.
Este texto, que se constrói tanto de palavras, memórias, pesquisa e interesse genuíno, quanto de lacunas, frustração, incômodo e resignação, é, antes de tudo, uma franca tentativa de impedir milimetricamente o avanço do apagamento que fere mulheres negras de morte no Brasil. Finalizo estas linhas bastante reticente sobre sua eficácia, mas feliz por ter conseguido encontrar (e compartilhar) um pouco da beleza que essas escritoras tão talentosas, Magdalena de Souza e Marisa Helena do Nascimento Araújo, imprimiram no mundo. Os Cadernos Negros, muito antes de serem um atestado da experiência literária negra-brasileira, são um baú de tesouros que não cansa de nos lembrar de que, mesmo com as investidas em nos apagar, nós permanecemos aqui, escrevendo e, sempre que possível, presentificando umas às outras através de nossa memória. Que honra ser testemunha e herdeira dessa história viva!




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