Pretapalavra feminina dos Cadernos Negros - Esmeralda & Miriam
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Salve, salve, pessoal! Em mais este encontro do nosso #PretaPalavra, me alegra saber que, ao mesmo tempo em que a memória da produção literária negra se fortalece em nós, o presente e o futuro desse mesmo sistema ganham novos capítulos importantíssimos. Neste mês de agosto, será lançada a 46a edição dos Cadernos Negros, o que significa mais uma grande chance de conhecer ou reencontrar a beleza e a contundência das narrativas engendradas por escritoras e escritores negros brasileiros contemporâneos.
Hoje, no terceiro texto desta coleção, quero celebrar dois pares de mãos femininas fundamentais para a existência dos CN, provavelmente duas das escritoras que mais são associadas pelo público leitor à manutenção intelectual e editorial da coletânea desde seus anos mais iniciais, ainda nos anos 80: Esmeralda Ribeiro e Miriam Alves. Estreando juntas nas páginas da quinta edição dos Cadernos Negros, prefaciada por ninguém menos que Lélia Gonzalez, Esmeralda e Miriam têm papeis incontornáveis na produção e disseminação da Literatura negra-brasileira ao longo dos últimos quarenta anos, e tal grandiosidade merece relevo. Tratar de suas trajetórias e trabalhos nestas breves linhas é uma honra, sobretudo pela oportunidade de reverenciá-las enquanto estão vivas, saudáveis e em plena produção, podendo acolher meus e nossos gestos de afeto e gratidão pelos caminhos literários abertos.

Esmeralda Ribeiro, escritora e jornalista nascida em São Paulo, além de organizadora da coletânea ao lado do também escritor Márcio Barbosa, é a voz feminina que mais vezes compareceu como autora de textos literários que dão corpo aos Cadernos Negros, tendo publicado poemas e contos em 35 das 45 edições regulares da coletânea. Em sua quarta participação nos CN, em 1986, Esmeralda nos presenteou com um poema crítico e desafiador que, até os dias atuais, tem o poder de nos fazer refletir sobre os significados da negritude na literatura e no mundo. Neste poema sem título, a experiência negra que busca desvencilhar-se de influências racistas ganha especial centralidade, convocando a importância inegociável da autonomia, sobretudo à época em que a obra foi publicada — dois anos antes do centenário da abolição da escravatura no Brasil.

Miriam Alves, escritora e assistente social nascida em São Paulo, também tem presença bastante recorrente nos Cadernos, contando com 21 edições regulares, entre contos e poemas. Miriam integrou oficialmente o grupo Quilombhoje até 1989, mas sua presença enquanto autora não foi interrompida. Ao lado de sua profícua produção literária solo, os textos publicados nos CN seguem sendo recordados, lidos e citados por sua sofisticação estética e sua contundência ideológica. Em sua primeira participação na coletânea, em 1982, Miriam Alves publicou, dentre cinco textos poéticos, o poema intitulado “Fumaça”: um trabalho que mobiliza sensibilidade, reflexão e um tipo de demonstração de vulnerabilidade que convida o leitor a olhar para si mesmo. A exaustão esquadrinhada pelo eu-lírico, tão humana, tão reconhecível, mas também apresentada de maneira tão singular pela linguagem poética, dá novos contornos a um sentimento amplamente conhecido por nós.

Esmeralda e Miriam, escritoras engenhosas e militantes dedicadas, há mais de quatro décadas contribuem para que o imaginário social acerca de corpos negros, cada vez mais, abranja nossa dignidade, nossa beleza, nossa agência e (por que não?) nossa teimosia, na vida e também na arte. Se hoje, em 2026, já sabemos “falar negramente” e descobrimos “que a resposta so[mos nós]” é porque desde os anos 80 duas mulheres gigantescas indicam e trilham o caminho.
Na próxima sexta-feira, dia 21 de agosto, no SESC 24 de maio, a partir das 18h30, aquela mesmíssima estrada inaugurada em 1978 por Cuti, Hugo Ferreira, Henrique Cunha Jr., Ângela Lopes Galvão, Eduardo de Oliveira, Célinha, Jamu Minka e Oswaldo de Camargo torna-se ainda mais ampla, mais nossa. As pedras fixadas por oito escritores determinados a enegrecer a literatura nacional multiplicaram-se e hoje são incontáveis: nesta 46a edição de Cadernos Negros, cinquenta e nove escritores (sendo trinta e nove mulheres) reiteram aquele velho pacto de contar nossas negras histórias e cantar nossos negros poemas. Que alegria poder receber mais uma vez o axé dessas palavras!




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