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Roberto Piva: os grandes olhos abertos para algum milagre da Sorte

>> Poesia Queer, por Guilherme Assis


Poeta “proletário-homossexual”, “cosmopaulista”, “anarco-monarquista”: estes alguns dos possíveis epítetos atribuídos ao inclassificável Roberto Piva.



R. Piva, primeira comunhão. Fonte: https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/45245-objetos-de-roberto-piva


Nasce em 1937, no “coração de São Paulo”, como diz o poeta na sua nota autobiográfica presente em Antologia Poética (1985). A antologia reunia vinte anos de trabalhos poéticos desde a estréia literária de Piva com o seu Paranóia (1963). Viria ainda Piazzas (1964), Abra os olhos e diga ah! (1976), Coxas (1979), 20 poemas com brócoli (1981), Quizumba (1983) e Ciclones (1997). Na segunda metade dos anos 2000, saiu pela editora Globo a publicação, em três volumes organizados pelo crítico Alcir Pécora, dos livros: Um estrangeiro na legião (2005), Mala na mão & asas pretas (2006) e Estranhos sinais de Saturno (2008). O último volume é acrescido de poemas inéditos e um CD com leituras de Piva.


Finalmente, em 2023, pela primeira vez o leitor brasileiro tem em mãos a poesia reunida de Piva em um só volume, lançado pela Cia. das Letras com o título Morda meu coração na esquina. O volume segue a organização proposta na edição anterior de início dos anos 2000, com alguma redução dos textos de aparato crítico. A grande ausência fica por conta do ainda inédito Corações de Hot-Dog, livro escritos nos anos 1980 e recusado na época pelo então editor da Brasiliense.



Do livro "Corações de Hotdog", manuscrito guardado no IMS - Rio de Janeiro.



Piva foi fiel às suas escolhas poéticas. Não reverenciou nenhuma escola, grupo ou personalidade. Talvez por isso tenha contado com o silêncio da crítica em torno de sua obra, que aborda a erótica e o jogo amoroso que se dá entre homens como não se tem notícia antes dele. Talvez aí outro motivo para o silenciamento da crítica. A atual edição tem o grande mérito de recolocar o discurso poético de Piva entre nós. Vem em bom momento. Sua obra é uma lição de um poeta que não acreditava em poesia experimental sem vida experimental. Lição de coragem na escrita, de escrita visceral, essa que nos lega Piva. Evoé, Piva!



GUILHERME DE ASSIS foi o primeiro curador da nossa #poesiaqueer, em 2020, que na época se chamava #poesiahomoerotica.


A #poesiaqueer faz parte de nosso projeto de acervo literário, onde convidamos escritoras(es), tradutoras(es) e pesquisadoras(es) para realizar uma curadoria inclusiva, refletindo sobre questões do fazer literário, que envolvem especialmente raça, gênero e orientação sexual. Pensando numa nomeclatura mais inclusiva, hoje em dia a iniciativa é chamada de "poesia queer". Neste projeto especial da Capi, convidamos vocês a refletir sobre tópicos ainda considerados "tabu", dentro do vasto universo do afeto e do amor.



Guilherme de Assis é mestre em Estudos Comparados pela USP - Universidade de São Paulo, com a dissertação “Escritas do desejo: representações do corpo homoerótico em Roberto Piva e Al Berto”, 2023.









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