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Bate-papo com Valentina Cantori #tradução&poesia






Valentina Cantori é tradutora, pesquisadora, artista de teatro e foi nossa primeira curadora da #tradução&poesia, projeto d’A Capivara de curadorias temáticas, onde convidamos escritoras(es), tradutoras(es) e pesquisadoras(es), para indicar e refletir sobre questões do fazer literário em nossos dias.


Para fechar esse ciclo curatorial em grande estilo, pedimos para Valentina responder algumas perguntas sobre sua jornada como tradutora, e reunimos aqui no site todo o precioso material que ela nos indicou durante sua curadoria.





Um viva a tradução e a todas as pessoas que trabalham em função de tornar a poesia cada dia mais ampla e acessível. <3



*Atualmente a batuta do projeto está com a poeta e tradutora Francesca Cricelli, e você pode conferir o material quinzenalmente aqui em nosso site!





Qual o desafio mais recorrente da tradução?



Para traduzir poesia é necessário compreender que a palavra poética passa antes de tudo pelo corpo, e que ritmo, sonoridade, métrica e rima não são elementos acessórios e/ou acidentais, escolhidos para enfeitar o poema: eles também são o poema. O maior desafio é encontrar o equilíbrio que permite a alquimia perfeita entre forma e conteúdo, lendo o texto poético em sua totalidade e não como somatória de elementos: o poema traduzido deve funcionar na harmonia — ou desarmonia — do original, tornando-se ele mesmo um original, e nunca uma cópia.




Qual poema (ou poeta) achou mais desafiador traduzir até hoje?



Particularmente desafiadora foi a tradução de alguns poemas de Hilda Hilst da série “Sonetos que não são” (os poemas integram um de seus primeiros livros, Roteiro do silêncio). Traduzi esses sonetos para o italiano e levei bastante tempo para obter na língua de chegada um texto que fosse realmente um poema, que traduzisse o original sem alterar as suas características. A escrita de Hilst é engenhosa, ágil e precisa, misturando fundamentos clássicos e experimentação, tradição e novidade: além da variação da métrica e da rima, cujo uso não é sempre convencional — trata-se, de fato, de “sonetos que não são”, seja porque questionam a natureza do “ser”, seja porque fogem da estrutura que os caracteriza —, precisei tomar certo cuidado para que o ritmo dos versos não se perdesse e para que as imagens, mesmo que mudadas em certos casos, restituíssem a sensação que se tem ao ler o poema original.


Outra prática desafiadora foi traduzir poesia seiscentista italiana para o português, entrando no estilo da época de forma natural, sem exagerar no artifício que caracteriza a escrita desse período. A tradução de um poema do século XVII não se obtém tornando o texto mais antiquado em sua superfície, mas entendendo como funciona a linguagem da época, que, nesse caso, se utiliza de modo estrutural dos mecanismos da retórica.




Qual poeta ainda sonha traduzir?



Há muitos e muitas poetas que gostaria de traduzir, ou de continuar a traduzir, e neste momento há duas Juanas que recorrem nos meus desejos de tradução: Sor Juana Inés de la Cruz e Juana de Ibarbourou.




Ficou faltando indicar alguém?



Alguém sempre falta. Além dos poetas mais conhecidos que já foram traduzidos para o português e que não tive a oportunidade de apresentar (caso a curadoria fosse mais extensa, certamente entrariam Brecht, Kaváfis, Pasolini e Primo Levi), há autores e autoras ainda pouco conhecidos/as, cuja poesia foi, por uma razão ou outra, deixada fora do cânone e posta às margens dos percursos literários. Esse trabalho, o de trazer para o nosso tempo o que em outra época foi apagado, me interessa particularmente.












Valentina Cantori é tradutora, pesquisadora e artista de teatro. Doutora em Letras (Universidade de Macerata/Universidade Hebraica de Jerusalém), desenvolve um projeto de pós-doutorado sobre literatura italiana e judaísmo (USP). Traduziu Ancestral de Goliarda Sapienza (Âyiné, 2020) e ministra oficinas sobre literatura italiana.










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