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A alegria da escrita de Wisława Szymborska #tradução&poesia por Francesca Cricelli


foto de Joanna Helander



Há um poema no último livro da poeta Ana Martins Marques, Risque esta palavra (Cia. das Letras, 2021), em que lemos "você se dá conta/ de repente/ de que muitos dos poemas que ama/ foram na verdade escritos/ por seus tradutores:/ senhores míopes/ enfiados em escritórios improvisados/ no quartinho dos fundos/ [...] jovens mães de família/ [...]/ professoras aposentadas / [...] funcionários públicos [...]/ doutorandos mal remunerados [...]/ autores de outros poemas/ que você não ama/ [...] debruçados sobre palavras/ que você nunca vai ler/ e lançando sobre o papel/ novas palavras/ que se tornarão depois/ suas preferidas [...]" – enfim quem serão os tradutores de poesia? Serão mesmo esses sujeitos misteriosos e anônimos? Esses poetas frustrados? Clare Canavagh publicou um ensaio sobre a experiência de traduzir poesia, em especial a polonesa, The art of losing. Polish Poetry and Translation na revista multilíngue suíça Specimen¹. Além da menção ao famoso poema One Art de Elizabeth Bishop, Canavagh reporta um comentário de Stephen Gill sobre o poema Prelude de Wlliam Wordsworth "toda perda se converte em ganho" para observar que isso não só valeria para o longo poema autobiográfico do autor inglês, mas para muito do que está presente na poesia moderna e na tradução de poesia. Para a tradutora, não é surpreendente que a poesia moderna polonesa tenha produzido tantos versos emblemáticos cantando a possibilidade de criar a partir da perda e da ruína, são as vozes do pós-guerra. Canavagh nos fala daquilo que Mandelstam nomeou como "calor teleológico", ou seja, a capacidade de criar formas líricas nos formatos domésticos entre ruínas e atrocidades, como no poema de Czeslaw Milosz Fundações: "Construí sobre areia/ E ruiu/ Construí sobre pedra/ E ruiu./ Agora quando construir, começarei/ com a fumaça das chaminés [...]". Para além das questões linguísticas e rítmicas que perpassam o debate sobre tradução de poesia, há uma potência naquilo que é o recorte, a curadoria – a escolha do que se traduz, do que se apresenta. Nos próximos meses ofereceremos uma fatia, algumas fatias, dessas vozes.


Francesca Cricelli





Wisława Szymborska (1923–2012) poeta prêmio Nobel que dispensa apresentações, sua obra foi traduzida na íntegra para o português e para muitas outras línguas. Apresentamos aqui três versões em português, a consagrada por Regina Przybycien e publicada pela Cia. das Letras, uma tradução mais antiga de Nelson Ascher via língua inglesa já publicada na Folha de São Paulo no ano 2000 e enfim sua versão lusitana assinada por Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves publicada pela editora Cavalo de Ferro. Enfim temos também sua versão em inglês por Clare Cavanagh e Stanisław Barańczak e em italiano por seu renomado tradutor Pietro Marchesani. Com um estilo aparentemente simples e seco surpreende os leitores com poemas que rompem a superfície do banal e da realidade, atrás de cada verso nos faz vislumbrar uma pitada do infinito que se esconde em tudo que é criado.





RADOŚĆ PISANIA


Dokąd biegnie ta napisana sarna przez napisany las? Czy z napisanej wody pić, która jej pyszczek odbije jak kalka? Dlaczego łeb podnosi, czy coś słyszy? Na pożyczonych z prawdy czterech nóżkach wsparta spod moich palców uchem strzyże. Cisza – ten wyraz też szeleści po papierze i rozgarnia spowodowane słowem „ las ” gałęzie.


Nad białą kartką czają się do skoku litery, które mogą ułożyć się źle, zdania osaczające, przed którymi nie będzie ratunku.


Jest w kropli atramentu spory zapas myśliwych z przymrużonym okiem, gotowych zbiec po stromym piórze w dół, otoczyć sarnę, złożyć się do strzału.


Zapominają, że tu nie jest życie. Inne, czarno na białym, panują tu prawa. Okamgnienie trwać będzie tak długo, jak zechcę, pozwoli się podzielić na małe wieczności pełne wstrzymanych w locie kul. Na zawsze, jeśli każę, nic się tu nie stanie. Bez mojej woli nawet liść nie spadnie ani źdźbło się nie ugnie pod kropką kopytka.


Jest więc taki świat, nad którym los sprawuję niezależny? Czas, który wiążę łańcuchami znaków? Istnienie na mój rozkaz nieustanne?


Radość pisania. Możność utrwalania. Zemsta ręki śmiertelnej.



Wisława Szymborska




A ALEGRIA DA ESCRITA ²


Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi?

É para beber da água escrita,

que desenha seu focinho?

Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?

Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade

ele apura as orelhas sob meus dedos.

Silêncio – essa palavra ressoa na textura do papel

e afasta os galhos

que brotam da palavra floresta.

Sobre a folha em branco há letras espreitando

que podem tomar o mau caminho

formando frases ameaçadoras

das quais nada escapa.

Em cada gota de tinta há um bom estoque

de caçadores de olho na mira,

prontos a descer pela caneta íngreme,

cercar o cervo e apontar as armas.

Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.

No preto-e-branco vigem outras leis.

Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser

e poderá ser dividido em pequenas eternidades,

cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.

Aqui nada acontecerá sem meu aval.

Contra minha vontade, nem uma folha cairá

e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.

Então existe um mundo

onde eu possa impor o destino?

Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?

Uma existência que, a meu comando, não terá fim?

A alegria de escrever.

O poder de preservar.

Vingança de uma mão mortal.

Tradução de Regina Przybycien





A ALEGRIA DA ESCRITA ³


Aonde é que, pela floresta escrita, esta corça escrita corre?

Rumo à água escrita de uma fonte

cuja superfície há de xerografar seu focinho macio?

Por que ergue a cabeça; terá ouvido algo?

Apoiada em quatro delgadas pernas emprestadas à realidade,

ela escuta atenta sob as pontas de meus dedos.

Silêncio – esta palavra também cruza sussurrando a página,

e aparta os ramos

nascidos da palavra “floresta”.

Prontas para o bote, há letras

mal intencionadas de tocaia,

garras de orações tão subordinadas

que jamais hão de deixá-la escapar.

Há em cada gota de tinta uma provisão

de caçadores de olhos semi-cerrados por detrás das miras,

que estão dispostos a descer a encosta da caneta,

encurralar a corça e apontar-lhe as armas devagar.

Esquecem que o que está aqui não é a vida.

Aqui, preto no branco, são outras as leis.

Um piscar de olhos há de durar quanto eu quiser,

subdividindo-se, se eu assim o desejar, em mínimas eternidades,

cheias de balas sustidas em pleno vôo.

Nada que eu não mande há de acontecer.

Sem minha permissão, nenhuma folha há de cair,

nem a relva há de se inclinar ao ponto final do pequeno casco.

Existe então um mundo

cujo destino determino inteiramente?

Um tempo que acorrento com signos?

Uma existência que meu comando torna eterna?

Alegria de escrever.

Poder de perpetuar.

Vingança de uma mão mortal.

Tradução do inglês de Nelson Ascher





A ALEGRIA DA ESCRITA ⁴


Para onde corre esta corça escrita pela mata escrita?

Beber da água escrita

que reflectirá o seu focinho como o papel químico?

Por que levanta a cabeça, ouvirá algo?

Sobre as quatro patas pela realidade concedidas,

debaixo dos meus dedos, apura o ouvido.

A palavra silêncio vai farfalhando no papel

e afastando

os galhos pela palavra “bosque” suscitados.


Por cima da folha branca, agacham-se para saltar

letras que se podem dispor mal,

frases que acuam,

das quais não escapa.


Numa gota de tinta há vários

caçadores de olhar franzido

prestes a correr caneta abaixo,

cercar a corça e fazer pontaria.


Não sabem que estão fora da vida real,

que neste preto no branco há outras leis.

Um pestanejar dura tanto quanto eu queira,

posso seccioná-lo em pequenas eternidades

cheias de balas imobilizadas no ar.

Se eu assim dispuser, nada te acontecerá.

Nem uma folha cairá sem a minha vontade,

nem um cisco se vergará sob o casco de um ponto final.


Será que há um mundo

cujo destino dependa do meu poder absoluto?

Um tempo acorrentado pelas minhas letras?

Uma realidade que persista por minha ordem?


Alegria da escrita.

Oportunidade de eternização. Vingança da mão mortal.

Tradução Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves


In «Alguns gostam de poesia – Antologia», com poemas de Czeslaw Milosz e de Wislawa Szymborska(selecção, introdução e tradução do polaco de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; e revisão de VascoRenato), Cavalo de Ferro Editores, Lda., Março de 2004 (1.ª edição).




THE JOY OF WRITING


Why does this written doe bound through these written woods? For a drink of written water from a spring

whose surface will xerox her soft muzzle?

Why does she lift her head; does she hear something?

Perched on four slim legs borrowed from the truth,

she pricks up her ears beneath my fingertips.

Silence—this word also rustles across the page

and parts the boughs

that have sprouted from the word “woods.”


Lying in wait, set to pounce on the blank page,

are letters up to no good,

clutches of clauses so subordinate

they’ll never let her get away.


Each drop of ink contains a fair supply

of hunters, equipped with squinting eyes behind their sights,

prepared to swarm the sloping pen at any moment,

surround the doe, and slowly aim their guns.


They forget that what’s here isn’t life.

Other laws, black on white, obtain.

The twinkling of an eye will take as long as I say,

and will, if I wish, divide into tiny eternities,

full of bullets stopped in midflight.

Not a thing will ever happen unless I say so.

Without my blessing, not a leaf will fall,

not a blade of grass will bend beneath that little hoof’s full stop.


Is there then a world

where I rule absolutely on fate?

A time I bind with chains of signs?

An existence become endless at my bidding?


The joy of writing.

The power of preserving.

Revenge of a mortal hand.


Tradução para o inglês Clare Cavanagh e Stanisław Barańczak



LA GIOIA DI SCRIVERE


Dove corre questa cerva scritta in un bosco scritto? Ad abbeverarsi a un’acqua scritta che riflette il suo musetto come carta carbone? Perché alza la testa, sente forse qualcosa? Poggiata su esili zampe prese in prestito dalla verità, da sotto le mie dita rizza le orecchie. Silenzio – anche questa parola fruscia sulla carta e scosta i rami generati dalla parola «bosco».


Sopra il foglio bianco si preparano al balzo lettere che possono mettersi male, un assedio di frasi che non lasceranno scampo. In una goccia d’inchiostro c’è una buona scorta di cacciatori con l’occhio al mirino, pronti a correr giù per la ripida penna, a circondare la cerva, a puntare.


Dimenticano che la vita non è qui. Altre leggi, nero su bianco, vigono qui. Un batter d’occhio durerà quanto dico io, si lascerà dividere in piccole eternità piene di pallottole fermate in volo. Non una cosa avverrà qui se non voglio. Senza il mio assenso non cadrà foglia, né si piegherà stelo sotto il punto del piccolo zoccolo.


C’è dunque un mondo di cui reggo le sorti indipendenti? Un tempo che lego con catene di segni? Un esistere a mio comando incessante?


La gioia di scrivere. Il potere di perpetuare. La vendetta d’una mano mortale.


Tradução para o italiano Pietro Marchesani






Francesca Cricelli, é poeta e tradutora literária. Cresceu entre o Brasil, a Itália e a Malásia. Publicou os livros de poemas Repátria no Brasil e na Itália (Selo Demônio Negro, 2015 e Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 nos EUA (edição de autora, 2017), na Islândia (Sagarana forlag, 2017) e na China (Museu Minsheng, 2018), além da plaquette As curvas negras da terra / Las curvas negras de la tierra (edição bilíngue, Nosotros Editorial, 2019). Suas crônicas de viagem e uma breve prosa de autoficção foram reunidas no livro Errância (Edições Macondo e Sagarana forlag , 2019). Traduziu, entre outras, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016) e Igiaba Scego (Nós, 2018). É doutora em Literaturas Estrangeiras e Tradução pela Universidade de São Paulo, com uma tese sobre o acervo de cartas de amor de Giuseppe Ungaretti para Bruna Bianco. Atualmente vive na Islândia onde estuda língua e literatura islandesa.




















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