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Torquato Neto, uma apresentação, por Júlia Cabo




No dia 10 de novembro de 2022 completam-se quarenta anos da morte de Torquato de Araújo Neto. Figura importante no campo cultural brasileiro das décadas de 60 e 70, Torquato constitui um caso ímpar na história da literatura brasileira, pois se trata de um autor que nunca publicou nenhum livro em vida, pelo contrário, chegou a tentar queimar seus cadernos e anotações antes de sua morte.


Como nos contou o também poeta e amigo de Torquato Neto, Waly Salomão, o que hoje conhecemos como a obra literária de Torquato Neto foi fruto de seu trabalho e de Ana Maria Duarte, a viúva de Torquato, em resgatar estes escritos do fogo e prepará-los para publicação. Para Waly: “Muitas vezes escrever um livro ou fazer um filme representa adiar um suicídio, mas no caso de Torquato Neto pode-se afirmar que o suicídio precedeu e originou a obra”.


Fragmentada, inacabada e composta por materiais provenientes de diversas fontes diferentes, a obra literária de Torquato Neto é de difícil definição. Talvez por isso o contato com esta ainda gere algum nível de confusão no leitor. E se é verdade que as edições mais recentes de seus trabalhos procuram melhor contextualizar os escritos de Torquato e fornecer algum tipo de fio condutor para a leitura, ainda assim podem oferecer alguma dificuldade para aquele que se depara com os escritos deste autor pela primeira vez.


Portanto, em vez de me deter no homem Torquato, na sua trajetória de vida, em seus feitos e em sua morte, optei aqui por fazer uma breve apresentação de sua obra literária. Para isso, acho interessante dividi-la entre aquilo que foi oferecido ao público durante seu período de vida e o material que só foi publicado após sua morte.


No primeiro caso estão as letras das músicas que Torquato compôs com artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Jards Macalé. Canções como Louvação, Mamãe, coragem, Todo dia é dia D, Pra dizer Adeus, Domingou, Marginália II e Geléia Geral se tornaram clássicos da música brasileira. E se hoje o seu nome já é bem estabelecido na história da literatura e da poesia brasileira, em seu período vida era por suas letras de música que Torquato era conhecido.


Em jornais da época, Torquato era às vezes chamado de o poeta dos baianos, uma referência – ainda que injusta – ao seu envolvimento com os músicos baianos durante o período em que o Tropicalismo agitava as discussões sobre música popular brasileira.


Ainda neste primeiro caso estão as colunas de jornal que Torquato publicou nos Jornal dos Sports (1967), no Correio da Manhã (1971) e no periódico Última Hora (1971-1972). Dentre estas destaca-se a Geléia Geral, publicada entre agosto de 1971 e março de 1972. Inovadora, polêmica e experimental, a Geléia Geral é, em minha opinião, a melhor porta de entrada para a obra de Torquato Neto. Ler estas colunas que Torquato publicou em jornal de ampla circulação da cidade do Rio de Janeiro não só oferece ao leitor um mergulho no cenário cultural da época, mas uma amostra abrangente da diversidade da escrita Torquateana. Assim, nesta breve experiência jornalística pode-se encontrar colunas sobre as sociedades de direitos autorais no Brasil, poesias, entrevistas com figuras importantes da época, críticas cinematográficas, prosas poéticas e muito da polêmica na qual se envolveram os cineastas daquilo que foi conhecido como Cinema Marginal.


A contribuição de Torquato para a famosa Revista Navilouca – lançada em 1974, dois anos após sua morte – também deve ser enquadrada neste primeiro bloco pois, ainda que somente tenha sido oferecida para o público após sua morte, foi preparada para publicação pelo próprio Torquato e, portanto, faz parte daquilo que Torquato quis de fato que fosse publicado.


Dentre os escritos que apenas foram publicados por intervenção de terceiros após sua morte temos, em primeiro lugar, seus diários. Batizados por Waly Salomão como D’Engenho de Dentro, o título destes diários foi uma invenção de Salomão que, em sua polissemia, refere-se tanto ao sanatório do Engenho de Dentro, onde Torquato ficou internado, quanto àquilo que é fruto da engenhosidade da mente de Torquato Neto. A entradas deste diário cobrem principalmente momentos em que Torquato esteve internado para tentar tratar seus problemas com bebida e impulsos suicidas. No entanto, embora abordem tais questões pessoais, alguns dos temas principais nestas anotações são a necessidade e ao mesmo tempo a incapacidade de explicar; a possibilidade e a impossibilidade da escrita. Diários de escritor.


Além dos diários, temos alguns poemas e prosas poéticas avulsos encontrados em cadernos do autor, rascunhos de colunas para a Geléia Geral, reflexões sobre o tropicalismo e sobre cinema, sua correspondência com Hélio Oiticica e alguns roteiros de filmes.


Acerca dos roteiros de filme, cabe lembrar que nos últimos anos de sua vida Torquato esteve fortemente envolvido com cinema, principalmente com o Cinema Marginal. Atuou, inclusive, como o protagonista do filme Nosferato no Brasil de Ivan Cardoso, hoje um clássico cult. Em várias das cartas para Hélio Oiticica e em suas anotações pessoais Torquato narra seus planos para realizar diversos filmes que nunca se concretizaram. A única exceção foi o filme O Terror da Vermelha, filmado com uma câmera Super-oito junho de 1972 em sua cidade natal, Teresina. Pelos relatos que se tem dos amigos que participaram do filme, o processo de filmagem foi bastante livre, sem um plano de filmagem definido. Como roteiro, um poema que narra as aventuras do assassino protagonista. Um trecho de tal poema-roteiro foi selecionado por Heloísa Buarque de Hollanda para compor a coletânea 26 Poetas Hoje de 1976 e é, portanto, um escrito de destaque em sua obra.


Assim, escolhi um pedaço deste poema-roteiro para deixar aqui, um convite para que aqueles que nunca leram Torquato Neto venham a conhecê-lo.










Júlia Cabo é professora de História, tradutora e pesquisadora. Desenvolve desde 2010 pesquisas interdisciplinares nos campos da História e da Literatura que possuem como foco o campo cultural brasileiro durante a ditadura militar. Atualmente é pós-doutoranda da Universidade Federal Fluminense onde realiza uma pesquisa sobre Poesia Marginal durante o período de abertura.



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