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O que Virginia Woolf quer de nós? por Mayara Freitas


Ouvi, e li, não raras vezes, que a escrita de Virginia Woolf (1882-1941) é complexa, hermética, descolada por completo da realidade ao seu redor. Ao longo dos anos de pesquisa, escutei também que suas narrativas não lineares, permeadas de mergulhos profundos na mente dos personagens e de passagens de um cenário a outro, de um tempo a outro, de uma figura a outra sem aviso prévio ou permissão do leitor seriam, se não apenas o fruto natural de uma mente que sofreu desde os 13 anos com colapsos nervosos, uma mera construção de escrita facilitada por tal condição. Mas, ao olharmos atentamente para o fazer literário de Woolf, vemos que a realidade da sua obra vai na contramão de todos esses pensamentos.



foto: https://portalimulher.com.br/wp-content/uploads/2023/01/virginia-woolf-autora.jpg



Virginia Woolf se desejava escritora desde a infância. Em busca da realização deste sonho devorava livros dos mais diversos temas, estudava incansavelmente, escrevia. Escrevia para o jornal da família; escrevia retratos cômicos dos visitantes de sua casa; escrevia em seus diários de juventude, buscando recriar com perfeição desde um pôr do sol à sensação angustiante de uma festa repleta de desconhecidos. Virginia queria viver de sua escrita e com ela ser capaz de lançar luz sobre tudo que estava além do que costumeiramente as pessoas mostram ao mundo. Ela ansiava por trazer à tona as minúcias da vida e conseguir transmitir sua essência tão efêmera.


Para tanto, a escritora pensava meticulosamente em cada detalhe de seus livros. “É preciso atirar cada grama de si mesmo para se expressar; [...] autores instintivos escorregam em suas obras”, diz ela em uma passagem de seu diário de 1924. E, no mesmo ano, enquanto escreve um de seus mais renomados romances, Mrs. Dalloway (1925), anota ainda: “O principal é jamais se entediar com sua própria escrita. Este é o sinal de uma mudança – não importa qual seja, desde que desperte interesse. Mas o meu veio de ouro situa-se tão fundo, em canais tão sinuosos! que para extraí-lo preciso avançar aos poucos & com dificuldade, abaixar-me e tatear”.


Woolf se voltava para o mundo com olhos bastante atentos, afinal, só assim poderia falar sobre a vida. Ainda muito jovem se deu conta, por exemplo, do lugar que desejavam que ela, como mulher, ocupasse na sociedade. A temática que é objeto de um dos seus mais célebres textos, o ensaio Um teto todo seu (1929), já pode ser encontrada em criações realizadas em sua mocidade. Em 1903, ela escreve acerca das jovens educadas para encontrar bons casamentos:


[...] Atualmente a maioria das jovens do nosso ciclo tem se especializado nesse ramo de aprendizagem. Suas noites são mais importantes para elas do que suas manhãs – de fato é difícil concebê-las pela manhã. Elas realmente existem antes do relógio bater às oito? Minha crença é de que o sino do jantar as chama para a existência – elas florescem nas salas de jantar como jacintos em junho. Ao amanhecer elas estão desbotadas – um pouco amassadas talvez – não importa – elas se fecham no sono – para acordar uma vez mais quando o sol se põe. Então, eu acho isso muito bonito e atrativo, mas sempre um pouco intrigante. Ela tem um caule ou um corpo? – ela está vestida em seda ou escumilha ou são pétalas de flor que brilham sobre ela? Acima de tudo, sobre o que ela fala? Vejo seus lábios moverem – gotas de mel brotam entre eles aparentemente, mas eu sei que nunca escutarei o que ela diz. Se eu me aproximo, ela fica em silêncio – ela fecha suas pétalas ao seu redor, ela deve, de fato, ser uma flor que passeia à noite.

A vida, esse material da escrita de Virginia Woolf, não é retilínea. Tampouco são as pessoas a viver as vidas e seus pensamentos, “somos cacos e mosaicos; & não, como antes se costumava afirmar, unidades imaculadas, monolíticas, consistentes”, comenta ela em mais um trecho de um de seus diários. A vida se dá a cada instante, em profusão, em imensidão de acontecimentos simultâneos. Neste exato momento, enquanto escrevo, penso em Virginia, mas também que preciso ir ao mercado, em uma briga que tive aos 18 anos com minha melhor amiga, que não corrigi as provas dos meus alunos, que preciso brincar com a minha cachorra, que se senta triste ao meu lado como seu eu nunca lhe tivesse feito um carinho. Do lado de fora das paredes de minha casa, outras tantas pessoas vivem outros tantos momentos e pensam outras tantas coisas. Tudo junto. Neste agora. Isso é a vida. E é sobre esse movimento real da vida que Woolf estrutura suas mais famosas obras – e talvez não exista maneira mais verdadeira de narrar nosso existir.


Cada página escrita por Virginia Woolf nos convida a aceitar o voo de nossas mentes e a ver o mundo no qual estamos imersos não de maneira sólida, mas em toda a sua contínua descontinuidade. A vida é naturalmente fragmentada, mutável, passageira. A vida por vezes (muitas vezes) não nos dá explicações claras de seus acontecimentos, nem finais bem delineados. Abrir um livro de Woolf é dar de cara com a vida. E viver demanda entrega, e é isso que Virginia Woolf quer de nós. Ela nos pede que nos entreguemos por inteiro às páginas de seus livros. Nos pede que paremos por instantes, poucos que sejam, para olhar cuidadosamente para a vida, como ela o fez.






Mayara Freitas é editora, professora de literatura em cursos livres e pesquisadora independente. É bacharela em Estudos Literários pela Unicamp e mestra em Letras pela USP, com a dissertação "Antes de Virginia Woolf: os diários de juventude e o início da construção de um olhar". Tem ensaios publicados em revistas eletrônicas e escreve sobre literatura e outras produções culturais para o site Valkirias.







#acapivara

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