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Como nós fomos sonhadas?, por Carolina Ferreira - PRETA PALAVRA


O #PRETAPALAVRA é um espaço de construção de sonhos, imaginários outros e novas possibilidades de ser por meio das literaturas e intelectualidades negras. Começo meu primeiro texto reverenciando as minhas mais velhas e os meus mais velhos por terem nos sonhado e aberto os caminhos. Eu, Carolina Ferreira, pesquisadora e curadora, cheguei à teoria porque estava machucada e aprendi com bell hooks que a teoria é também um local de cura.


Em 2020, eu escrevi uma carta para Carolina Maria de Jesus, me lembro de ter chorado um bocado. Ler a obra de Carolina e escrever uma carta para ela versaram outras possibilidades de existência e de futuro para mim – assim como participar do processo da Flup naquele ano. Nela, conto para minha xará o quanto a sua força realizadora me inspirou naquele momento: “Eu também tenho sido inundada por algo inominável, que palavra nenhuma é capaz de dar conta, mas foi a linguagem que me tirou da inércia e me inspirou a sair do quarto de despejo das ideias.” Sou Carolina dos Santos Ferreira, filha de Marinês Ferreira dos Santos e de Reginaldo Rodrigues Ferreira. Neta da Lavina, da Maria e do José. A primeira a ingressar no ensino superior, e a receber o título de mestra.


Desde então, eu sempre me pergunto: como nós fomos sonhadas? Ao pensar a nossa produção artística e intelectual, me interessam muito as dimensões da imaginação, do sonho, da nossa poética e produção de conhecimento. Porque as estruturas de poder tentam reduzir a nossa subjetividade à falta, à violência, a uma história ficcional que tenta apagar a nossa ancestralidade e seus saberes e tecnologias. Aos olhos hegemônicos da transparência, há um mecanismo violento de não acessar aquilo que é diferente, que desperta o não entendimento por não estar pautado nas teorias já instituídas. Precisamos olhar essas produções a partir da opacidade, como nos ensina Édouard Glissant, para acessá-las a partir da diferença, do mistério e do performático.


Nós fomos (e somos sonhadas) e sonhamos para criar espaços de possibilidade de existência e de compartilhamento coletivo. Espaços que nos proporcionem uma experiência de característica fugitiva de transcender ou de “fazer o real escapar, operar nele variações sem fim para contornar qualquer tentativa de captura”, como suscita Bona. E é a arte, entre tantas outras estratégias de existência, que permite que a gente comungue essa experiência em que (re)criamos nosso quilombo.


Vida longa ao #PRETAPALAVRA e para minha irmã Carol Casati, que torna possível esse encontro e esse espaço que produz vida e futuridades!





Carolina Ferreira é mestra em literatura e crítica literária da PUC-SP. Gerente de projetos em diversidade e inclusão e autora de conteúdo didático. Participou da antologia "Carolinas: a nova geração de escritoras negras", organizada pela FLUP (Bazar do Tempo, 2020). É pesquisadora-fundadora do Grupo de Pesquisa de Literaturas e Ancestralidades Negras – GPLAN da PUC-SP. E também curadora responsável pelo circuito da livraria Gato sem rabo. Tem se dedicado a investigar poéticas negras na literatura escrita por mulheres e na arte contemporânea e, mais recentemente, literaturas negras de infância e juventude.






O projeto PRETAPALAVRA é uma iniciativa d'A Capi em parceria com Maria Carolina Casati (@encruzilinhas), para divulgar e amplificar as vozes de escritoras negras.


Conheça outras iniciativas em nosso blog!






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